Entrevistas

“Ser um Centro UCARE contribui para uma melhor compreensão dos mecanismos fisiopatológicos da urticária crónica e investigar outras terapêuticas”

30 Set. 2022

Certificados internacionalmente com o propósito de prestar os melhores cuidados de saúde aos doentes com urticária, elaborar estudos, aplicar os mais atuais métodos de diagnóstico e terapêutico e conhecer outros parâmetros sobre a urticária crónica, os Centros UCARE – Urticaria Centers of Reference and Excellence - surgem como centros de excelência e referência para providenciar uma melhor qualidade de vida aos doentes. A My Alergologia foi conhecer o Centro UCARE do Serviço de Imunoalergologia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN), Hospital de Santa Maria, e conversou com a Dr.ª Célia Costa, coordenadora, com o intuito de saber mais sobre estes centros e que missão institucional e comunitária detêm.

A 1 de outubro assinala-se o Dia Mundial da Urticária. Este ano, tendo como objetivo a “Melhor qualidade de vida”, serão divulgadas informações sobre, nomeadamente, o que é a urticária, o impacto que detém sobre os doentes quando descontrolada, procurando-se aumentar o conhecimento para que os profissionais que não lidam frequentemente com esta patologia possam estar “familiarizados”. Tais informações têm como destinatários a comunidade médica e a população em geral, num processo desencadeado pelo Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, através do portal oficial do hospital. Além do mais, a Dr.ª Célia Costa é cofundadora e coordenadora do Grupo Português de Estudos da Urticária, fundado em 2015, contando com a colaboração de médicos especialistas em Imunoalergologia e Dermatologia, que seguem os doentes com este tipo de patologia. O próprio grupo, comenta a especialista, sente necessidade de elaborar publicações e recomendações para toda a comunidade científica sobre a abordagem desta patologia em contexto de consulta e de urgência.

Inseridos numa rede global com centros distribuídos por todo o mundo, a Dr.ª Célia Costa explana a importância de pertencer a esta rede UCARE afirmando que permite “participar em reuniões e discussão sobre os últimos conhecimentos da patologia e sobre os mais recentes fármacos disponíveis”, tal como “participar em estudos multicêntricos”. Deste modo, consegue-se oferecer “melhores métodos de diagnóstico, mas sobretudo melhores tratamentos ao doente”, ainda que não exista cura para esta doença “extremamente complexa e multifatorial”, existe tratamento.
Além disso, a abordagem terapêutica existente para a urticária crónica converge num só sentido: a redução “total” dos sintomas apresentados pelo doente para que não tenha impacto na sua qualidade de vida. Os anti-histamínicos de segunda geração não sedativos apresentam-se como primeira linha terapêutica, apesar de haver um outro grupo de anti-histamínicos de primeira geração que “apresentam diversos efeitos adversos”, além de “não serem mais eficazes” e poderem resultar no detrimento da qualidade de vida dos doentes. No tratamento inicial, a dose aprovada é um comprimido diário, sendo possível observar a resposta ao tratamento mediante a análise de uns questionários preenchidos diariamente pelo próprio doente. Nesta autogestão são avaliados e considerados dois sintomas principais: as pápulas e a comichão. Podem ainda surgir angioedemas, inchaços que podem ocorrer em peles mais finas, pelo que o doente vai preenchendo todos os sintomas até à altura em que se dirige a uma consulta.

Caso a resposta à terapêutica não seja a expectável, a Dr.ª Célia Costa indica que é “dever” dos profissionais que acompanham estes doentes “aumentarem em termos de degraus terapêuticos”, sendo que o passo seguinte passa por adicionar a dose do mesmo anti-histamínico de segunda geração e que pode ir até quatro comprimidos por dia.
Não havendo resposta e melhoria no controlo da patologia com os anti-histamínicos de segunda geração na dose quádrupla, existe um biológico aprovado — o omalizumab —, um anticorpo monoclonal anti-IgE, que é “neste momento o único biológico aprovado”. A sua taxa de resposta é “elevada”, desde os 70 % aos 80 %, diferindo entre cada centro, existindo doentes que podem não responder à dose aprovada e, para estes, as últimas recomendações esclarecem que se deve “aumentar a dose” ou “encurtar o intervalo”.

Em termos de referenciação de doentes para o centro UCARE, a coordenadora menciona que “nos últimos anos aumentou significativamente o número de casos encaminhados para a consulta por urticária crónica não controlada”.

Certificação GA2LEN: “Reconhecimento do esforço e dedicação”

Para se obter a certificação atribuída pela Global Allergy and Asthma European Network (GA2LEN), tendo sido a primeira adquirida em 2018, são precisos cumprir 32 critérios. Requerer a sua recertificação, por norma bianual, sugere que os requisitos se mantenham, e que o centro agrega diversos aspetos exigidos ao nível das infraestruturas, investigação, educação sobre a patologia, informação e gestão da urticária e desenvolvimentos de diagnóstico e tratamento.

A Dr.ª Célia Costa partilha que a certificação internacional a nível institucional significa um “reconhecimento do esforço e dedicação de tantos anos dedicados a estes doentes e a esta patologia”. Acrescenta que é vantajoso pertencer a uma “rede de especialistas dedicados a esta área e alguns com uma capacidade de investigação muito grande”, podendo surgir daí resultados que podem “beneficiar” os doentes, incluindo os portugueses.

Termina atentando para o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela própria nos últimos tempos e para a importância das formações nos serviços de urgência destinadas a especialistas de Medicina Geral e Familiar sobre os critérios de referenciação dos doentes.

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